Como
é não enxergar?
O que substituímos em nossos instintos para compensar
a perda da visão?
Como é nunca ter enxergado, pelo menos não da
maneira usual?
A
Nina sabe como é.
Quando começamos a trabalhar juntas perguntei o que
ela gostaria de fazer, que formas conhecia, que objetos.
O ferro de passar foi foco da conversa.
Ela gostaria de fazer um ferro de passar roupas.
Só que ela ainda não tinha pego nenhum. Para
a semana seguinte ficou combinado que o ferro seria observado
alguns minutos diariamente aquela semana.
O
tamanho dele em relação a sua mão, como
era a parte que tocava a mesa, se um lado era como o outro,
se havia um nariz como no nosso rosto que determina onde é
a face em relação à cabeça ....
tudo que fosse possível sentir com o tato.
Na
semana seguinte ela fez o ferro e depois uma colher de pau,
um sapato, um rosto com orelhas, uma pêra, uma garrafa,
a cestinha que fica ao lado de sua cama...
Ela sabe o que é forma, tem um banco de dados consciente
e sabe transmitir a dimensão para a argila.
É
só conhecê-la para saber que é muito amada
e cuidada com todo carinho.
As primeiras peças tinham relação com
ruídos e odores, como a roupa sendo passada e a colher
de pau mexendo doce na panela.
Numa rotina intimista, o trabalho doméstico, o convívio
com a mãe.
A
Nina vê com sentidos que muitas pessoas não desenvolvem.
Observando
e sentindo ela criou cenários mentais, ricos e particulares.
Eu
não sabia nada disso, foi ela que ensinou.
D
Ilda, D Cida, Eliana, Maria Helena, Doralice, Sara, Seu Sebastião,
Daiane, Deivanyo, Resende, Gilmar, Sebastião, Chiquinho,
Roberto, Seu Benedito, todos, conhecem a sensibilidade do
tato.
São professores