Milton Lorena - Jóia de Autor
Milton Lorena, artista joalheiro, recebeu o 1º Prêmio no Concurso
Design de JÓIASdoBRASIL.com - 2006 que tem por objetivo a divulgação
do design de jóias brasileiro. Veja Concursos

Entrevista
Criação e montagem de uma jóia artesanal
Passo a passo para você

Entrevista
Como foi seu encontro com a criação de jóias?
Milton Lorena - A minha formação é em Filosofia e Psicologia, mas a música e as artes são tradicionais na minha família. Sempre gostei de trabalhos manuais e, no momento em que
decidi me dedicar a um artesanato mais fino e trabalhar com a prata, encontrei a
joalheria autoral e uma forma de expressar a minha criatividade.

   
O que diferencia o artista joalheiro dos demais ourives?
Milton Lorena: Quanto às técnicas não há diferença, o que caracteriza o artista joalheiro é a necessidade, que todo artista tem, de ser um criador.

Há quanto tempo você faz este trabalho?
Milton Lorena
: Após uma primeira fase de descoberta e aprendizado que durou aproximadamente
6 anos e uma interrupção por igual período, meu trabalho ganhou regularidade e consistência
há uns 8 anos. Por solicitação e incentivo de amigos, percebi que valia a pena retomar este caminho.

G - Você trabalha exclusivamente com a criação de jóias?
Milton Lorena: A vida longe dos grandes centros também oferece oportunidades. E, se há um predomínio do conservadorismo no consumo de jóias, existem solicitações para a restauração
e recuperação de metais artísticos, artigos de selaria, pratarias e objetos sacros. Tenho diversos trabalhos realizados para o Santuário Basílica de São Benedito em Lorena e para a Igreja Matriz de São Miguel Arcanjo em Piquete, entre vários outros.

G – Que materiais você utiliza nos seus trabalhos?
Milton Lorena: Percebe-se que as pessoas não estão mais interessadas em jóias, apenas como investimento ou ostentação. Esta mudança de hábito permite a utilização de grande variedade
de materiais alternativos. Continuo trabalhando principalmente com ouro e prata, mas com o objetivo de criar adornos diferenciados e sintonizados com a personalidade e o potencial de consumo de cada cliente.

G – E onde se encontram os seus trabalhos?
Milton Lorena: Meu trabalho chega aos clientes por meio de algumas representantes e de pontos
de vendas no Litoral Norte e na Capital. Tenho um representante em Boston/USA.
Como trabalho sozinho, não dá para atender muitas frentes.
Morando no interior, fico um pouco alheio do grande mercado, porém tem suas vantagens
e faz mais o meu gênero.
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Milton Lorena é autor dos textos da página Ourivesaria. Dicas ótimas.


Criação e montagem de uma jóia artesanal.

A Joalheria é um amplo campo de atividades onde atuam profissionais de diversas
especialidades em áreas técnicas distintas. O artista joalheiro, autor de jóias, costuma
ser um multiespecialista que utiliza uma linguagem particular para expressar a própria
criatividade. É na oficina e na intimidade com as ferramentas e os processos que ele se
habilita para o diálogo criativo com as diferentes personalidades dos metais e dos mais
diversos materiais. E uma das minhas grandes surpresas quando comecei, foi perceber
que o mestre, mesmo com toda a sua experiência, nem sempre podia prever se o que ele
tinha em mente daria certo, ou não. E, como primeira lição, aprendi que traduzir uma idéia
para o metal pode ser comparado a caminhar entre muitas encruzilhadas e chegar, às vezes,
a um lugar completamente inesperado. E, onde alguns se sentem frustrados, outros
encontram, justamente, um maior estímulo para a criatividade, descobrindo soluções e
arranjos que materializam a expressão de um momento.

Basicamente, meu trabalho segue um método de composição que consiste em encontrar
uma determinada forma, localizar nesta forma um centro de interesse e definir uma área
de contraste ou complemento. São três momentos distintos, não há uma hierarquia
entre eles e todos são igualmente importantes para o conjunto. A forma, muitas vezes,
desce espontaneamente pela inspiração e um centro de interesse pode ser, quase automaticamente, direcionado para a presença de uma gema, mas a definição do
contraste ou complemento exige maior esforço e transpiração. É ele que vai
estabelecer o equilíbrio entre os componentes e, não raro, representar o toque
original que torna uma obra de arte, única e especial.
E, com certeza, a solução poderá se encontrar entre uma infinidade de técnicas
disponíveis. Uma das minhas preferidas é a utilização do metal reduzido a
pó em diferentes maneiras como, a aplicação sobre chapas, no revestimento de
fios, sobre áreas reticuladas a fogo, e sobre fios previamente derretidos.
Obviamente, não é possível transmitir conhecimento prático fora de
uma situação real de trabalho, mas podemos examinar algumas das principais
fases da criação e montagem de um anel de prata com uma guarnição de fios
revestidos com pó de ouro, concebido especialmente para a ocasião.



Passo a passo para você
Por Milton Lorena

Passo 1 - Tomando como ponto de partida uma gema de quartzo em
lapidação briolet, tentei imaginar um alojamento para ela, fugindo das
soluções convencionais como a cravação inglesa, em garras, bezel, etc.
Como primeira providência, construí um aro simples utilizando um fio
de seção retangular e, com a sobra do material modelei
um elemento em forma de gota, soldando-o sobre o anel.


Foto 1 - Gema briolet e o berço em forma de gota.

Passo 2 - Ajustando a altura do elemento em gota e optando pela
colocação da gema com o cone para cima, defini a forma da jóia, o foco
de atenção e cheguei à solução dos dois primeiros momentos.


Foto 2 - Gema com o cone para cima.

Passo 3 - Encarando no terceiro momento a necessidade de enriquecer
o trabalho e fixar a gema, optei por criar uma guarnição com um fio
de prata revestido com pó de ouro.

TÉCNICA PARA REVESTIMENTO DO FIO DE PRATA COM PÓ DE OURO
Materiais utilizados:

0,6 g de ouro 750
0,3 g de solda de prata a 60% (solda média)
fio de prata 950, bitola 1.1 mm X 150 mm de comprimento

Procedimentos:

· Utilizei duas limas de 6 polegadas. Reduzi o ouro a pó com a lima mais grossa,
para produzir grãos maiores e um melhor efeito de textura. Reduzi a solda de
prata a pó com a lima mais fina, para produzir grãos de solda menores
e facilitar a soldagem do pó de ouro.

· Passei as limalhas pelo imã, para remover resíduos de ferro e calcinei-as
separadamente, para queima de vestígios de madeira e outros materiais orgânicos.

· Em seguida, misturei-as em um recipiente e adicionei fluxo para soldagem de
ouro (Soldaron), diluído com água em partes iguais, aos poucos,
até formar uma espécie de papa mole e úmida.

· Feito isso, apliquei fluxo para soldagem de prata (prata flux), sobre uma parte
do fio e em seguida aqueci ligeiramente, apenas para secagem do fluxo.

Com uma espátula, depositei uma pequena porção da papa (ouro+solda) sobre
o fio (foto 3), com cuidado para não escorrer nem se desprender, por sobre
uma extensão de uns 20 mm do fio de prata.


Foto 3 - Papa de ouro+solda sobre o fio de prata.

· Em seguida procedi à soldagem, tomando o cuidado para a solda escorrer, mas
sem fundir os grãos de ouro. Esta operação exige habilidade como fogo e
alguma experimentação, até o domínio da técnica. E para revestir o fio em
toda a sua circunferência, virei a parte já aplicada para baixo e repeti a operação.


Foto 4 - Revestimento do fio de prata com pó de ouro.

Passo 4 - Depois de obtida uma extensão suficiente de fio revestido, precisei
decidir o que fazer com ele. Tomando o diâmetro da gema como base, modelei no
tribulé, dois semicírculos, um maior e outro ligeiramente menor, que foram
soldados nas pontas formando uma peça única.


Foto 5 - Semicírculos com as pontas soldadas.

Passo 5 - O próximo passo foi o acoplamento dos semicírculos ao elemento em gota.
Amarrei um dos lados com fio de ferro recozido, e soldei o lado oposto.
Em seguida cortei fora o fio de ferro e completei a soldagem de ambos os lados.


Foto 6 - Acoplamento dos semicírculos ao berço.

Passo 6 - Feito o polimento, estava completo o conjunto, com o elemento de
contraste enriquecendo o trabalho e solucionando o terceiro momento.


Foto 7 - Conjunto montado e polido.

Passo 7 - Como última etapa de finalização da peça, contei com o auxílio de
um acalcador para pressionar o semicírculo menor sobre a gema, fixando-a sob pressão.


Foto 8 - Gema fixa sob pressão.
. Como tudo deu certo e terminamos o projeto com um final feliz,
o nosso anel recebeu o nome de Happy-End!


ANEL HAPPY - END


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