Entrevista
Como foi seu encontro com a criação de jóias?
Milton Lorena -
A minha formação é em Filosofia e Psicologia, mas
a música e as artes são tradicionais na minha família.
Sempre gostei de trabalhos manuais e, no momento em que
decidi me dedicar a um artesanato mais fino e trabalhar com a prata,
encontrei a
joalheria autoral e uma forma de expressar a minha criatividade.
O
que diferencia o artista joalheiro dos demais ourives?
Milton
Lorena:
Quanto
às técnicas não há diferença, o que
caracteriza o artista joalheiro é a necessidade, que todo artista
tem, de ser um criador.
Há
quanto tempo você faz este trabalho?
Milton Lorena:
Após uma primeira fase de descoberta e aprendizado que durou
aproximadamente
6 anos e uma interrupção por igual período, meu
trabalho ganhou regularidade e consistência
há uns 8 anos. Por solicitação e incentivo de
amigos, percebi que valia a pena retomar este caminho.
G - Você trabalha
exclusivamente com a criação de jóias?
Milton Lorena: A
vida longe dos grandes centros também oferece oportunidades.
E, se há um predomínio do conservadorismo no consumo
de jóias, existem solicitações para a restauração
e recuperação de metais artísticos, artigos de
selaria, pratarias e objetos sacros. Tenho diversos trabalhos realizados
para o Santuário Basílica de São Benedito em
Lorena e para a Igreja Matriz de São Miguel Arcanjo em Piquete,
entre vários outros.
G – Que materiais
você utiliza nos seus trabalhos?
Milton Lorena:
Percebe-se que as pessoas não estão mais interessadas
em jóias, apenas como investimento ou ostentação.
Esta mudança de hábito permite a utilização
de grande variedade
de materiais alternativos. Continuo trabalhando principalmente com
ouro e prata, mas com o objetivo de criar adornos diferenciados e
sintonizados com a personalidade e o potencial de consumo de cada
cliente.
G – E onde se
encontram os seus trabalhos?
Milton Lorena:
Meu trabalho chega aos clientes por meio de algumas representantes
e de pontos
de vendas no Litoral Norte e na Capital. Tenho um representante em
Boston/USA.
Como trabalho sozinho, não dá para atender muitas frentes.
Morando no interior, fico um pouco alheio do grande mercado, porém
tem suas vantagens
e faz mais o meu gênero.
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Milton Lorena é autor dos textos da página Ourivesaria.
Dicas ótimas.
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Criação
e montagem de uma jóia artesanal.
A Joalheria
é um amplo campo de atividades onde atuam profissionais de
diversas
especialidades em áreas técnicas distintas. O artista
joalheiro, autor de jóias, costuma
ser um multiespecialista que utiliza uma linguagem particular para
expressar a própria
criatividade. É na oficina e na intimidade com as ferramentas
e os processos que ele se
habilita para o diálogo criativo com as diferentes personalidades
dos metais e dos mais
diversos materiais. E uma das minhas grandes surpresas quando comecei,
foi perceber
que o mestre, mesmo com toda a sua experiência, nem sempre podia
prever se o que ele
tinha em mente daria certo, ou não. E, como primeira lição,
aprendi que traduzir uma idéia
para o metal pode ser comparado a caminhar entre muitas encruzilhadas
e chegar, às vezes,
a um lugar completamente inesperado. E, onde alguns se sentem frustrados,
outros
encontram, justamente, um maior estímulo para a criatividade,
descobrindo soluções e
arranjos que materializam a expressão de um momento.
Basicamente,
meu trabalho segue um método de composição que
consiste em encontrar
uma determinada forma, localizar nesta forma um centro de interesse
e definir uma área
de contraste ou complemento. São três momentos distintos,
não há uma hierarquia
entre eles e todos são igualmente importantes para o conjunto.
A forma, muitas vezes,
desce espontaneamente pela inspiração e um centro de
interesse pode ser, quase automaticamente, direcionado para a presença
de uma gema, mas a definição do
contraste ou complemento exige maior esforço e transpiração.
É ele que vai
estabelecer o equilíbrio entre os componentes e, não
raro, representar o toque
original que torna uma obra de arte, única e especial.
E, com certeza, a solução poderá se encontrar
entre uma infinidade de técnicas
disponíveis. Uma das minhas preferidas é a utilização
do metal reduzido a
pó em diferentes maneiras como, a aplicação sobre
chapas, no revestimento de
fios, sobre áreas reticuladas a fogo, e sobre fios previamente
derretidos.
Obviamente, não é possível transmitir conhecimento
prático fora de
uma situação real de trabalho, mas podemos examinar
algumas das principais
fases da criação e montagem de um anel de prata com
uma guarnição de fios
revestidos com pó de ouro, concebido especialmente para a ocasião.
Passo a passo para você
Por Milton Lorena
Passo 1 - Tomando como ponto de partida uma gema de quartzo em
lapidação briolet, tentei imaginar um alojamento para
ela, fugindo das
soluções convencionais como a cravação
inglesa, em garras, bezel, etc.
Como primeira providência, construí um aro simples utilizando
um fio
de seção retangular e, com a sobra do material modelei
um elemento em forma de gota, soldando-o sobre o anel.

Foto 1 - Gema briolet e o berço em forma de gota.
Passo 2 - Ajustando a altura do elemento em gota e optando pela
colocação da gema com o cone para cima, defini a forma
da jóia, o foco
de atenção e cheguei à solução
dos dois primeiros momentos.

Foto 2 - Gema com o cone para cima.
Passo 3 - Encarando
no terceiro momento a necessidade de enriquecer
o trabalho e fixar a gema, optei por criar uma guarnição
com um fio
de prata revestido com pó de ouro.
TÉCNICA
PARA REVESTIMENTO DO FIO DE PRATA COM PÓ DE OURO
Materiais utilizados:
0,6 g de ouro 750
0,3 g de solda de prata a 60% (solda média)
fio de prata 950, bitola 1.1 mm X 150 mm de comprimento
Procedimentos:
·
Utilizei duas limas de 6 polegadas. Reduzi o ouro a pó com
a lima mais grossa,
para produzir grãos maiores e um melhor efeito de textura.
Reduzi a solda de
prata a pó com a lima mais fina, para produzir grãos
de solda menores
e facilitar a soldagem do pó de ouro.
·
Passei as limalhas pelo imã, para remover resíduos de
ferro e calcinei-as
separadamente, para queima de vestígios de madeira e outros
materiais orgânicos.
·
Em seguida, misturei-as em um recipiente e adicionei fluxo para soldagem
de
ouro (Soldaron), diluído com água em partes iguais,
aos poucos,
até formar uma espécie de papa mole e úmida.
·
Feito isso, apliquei fluxo para soldagem de prata (prata flux), sobre
uma parte
do fio e em seguida aqueci ligeiramente, apenas para secagem do fluxo.
Com
uma espátula, depositei uma pequena porção da
papa (ouro+solda) sobre
o fio (foto 3), com cuidado para não escorrer nem se desprender,
por sobre
uma extensão de uns 20 mm do fio de prata.

Foto 3 - Papa de ouro+solda sobre o fio de prata.
· Em
seguida procedi à soldagem, tomando o cuidado para a solda
escorrer, mas
sem fundir os grãos de ouro. Esta operação exige
habilidade como fogo e
alguma experimentação, até o domínio da
técnica. E para revestir o fio em
toda a sua circunferência, virei a parte já aplicada
para baixo e repeti a operação.

Foto 4 - Revestimento do fio de prata com pó de ouro.
Passo 4 - Depois de obtida uma extensão suficiente de fio revestido,
precisei
decidir o que fazer com ele. Tomando o diâmetro da gema como
base, modelei no
tribulé, dois semicírculos, um maior e outro ligeiramente
menor, que foram
soldados nas pontas formando uma peça única.

Foto 5 - Semicírculos com as pontas soldadas.
Passo 5 - O próximo passo foi o acoplamento dos semicírculos
ao elemento em gota.
Amarrei um dos lados com fio de ferro recozido, e soldei o lado oposto.
Em seguida cortei fora o fio de ferro e completei a soldagem de ambos
os lados.

Foto 6 - Acoplamento dos semicírculos ao berço.
Passo 6 - Feito o polimento, estava completo o conjunto, com o elemento
de
contraste enriquecendo o trabalho e solucionando o terceiro momento.

Foto 7 - Conjunto montado e polido.
Passo 7 - Como última etapa de finalização da
peça, contei com o auxílio de
um acalcador para pressionar o semicírculo menor sobre a gema,
fixando-a sob pressão.
Foto 8 - Gema fixa sob pressão.
. Como tudo deu certo e terminamos o projeto com um final feliz,
o nosso anel recebeu o nome de Happy-End!

ANEL HAPPY - END
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